Théo tem 7 anos e a professora já mandou três bilhetes: não fica sentado, responde antes de a pergunta terminar, derruba a cadeira toda manhã. Na mesma sala, Lívia não dá trabalho nenhum. Olha para a lousa, sorri quando chamam, e no fim do bimestre ninguém entende por que a prova veio em branco onde ela "sabia tudo".
Os dois têm TDAH. A diferença entre eles não é de gravidade, é de apresentação: num domina o corpo que não para; na outra, a atenção que escorrega. O tipo mais barulhento não é o mais grave, e o mais silencioso não é o mais leve.
Quais são os tipos de TDAH?
São três, definidos no DSM-5-TR pela contagem de sintomas em dois grupos. Se a pessoa atinge o mínimo só no grupo da desatenção, a apresentação é predominantemente desatenta; só no da hiperatividade-impulsividade, predominantemente hiperativa-impulsiva; nos dois, combinada. O mínimo é seis sintomas até os 16 anos e cinco a partir dos 17, por pelo menos seis meses.
O manual lista nove sintomas de cada grupo (a lista completa está em o que é TDAH). Na CID-11 da OMS, cada apresentação tem código próprio: 6A05.0 (desatenta), 6A05.1 (hiperativa-impulsiva) e 6A05.2 (combinada).
Predominantemente desatenta
Sintomas-chave: perde o fio, esquece compromissos, perde objetos, evita tarefas longas, parece não escutar. Na escola e no trabalho: nota baixa "sem motivo", entrega atrasada apesar do esforço, e-mail lido e nunca respondido. Mais comum em: meninas, mulheres e adultos. É a que mais passa despercebida.
Predominantemente hiperativa-impulsiva
Sintomas-chave: não para quieto, fala demais, interrompe, responde antes do fim da pergunta, não espera a vez. Na escola e no trabalho: bilhete da professora, bronca por "indisciplina"; no adulto, decisão por impulso e inquietação por dentro. Mais comum em: crianças pequenas, em especial meninos. Leva ao diagnóstico mais cedo, porque incomoda.
Combinada
Sintomas-chave: atinge o mínimo nos dois grupos; desatenção e impulsividade se somam. Na escola e no trabalho: o aluno que atrapalha a aula e não termina o dever; o adulto que começa dez projetos e não entrega nenhum. Mais comum em: crianças em idade escolar. É a mais frequente e a mais estudada.
| Desatenta | Hiperativa-impulsiva | Combinada | |
|---|---|---|---|
| Sintomas | ≥6 (≥5 no adulto) de desatenção; menos de hiperatividade | ≥6 (≥5 no adulto) de hiperatividade-impulsividade; menos de desatenção | ≥6 (≥5 no adulto) em cada grupo |
| Idade típica de diagnóstico | Tarde: adolescência ou vida adulta, quando a exigência de organização cresce | Cedo: pré-escola e primeiros anos escolares | Infância escolar, por queixa da escola |
| Como aparece no dia a dia | Boleto vencido com dinheiro na conta, reunião ouvida e não retida, chave perdida | Pé batendo, fala por cima, compra por impulso, "não consigo relaxar" | Começa muito, termina pouco, e ainda interrompe |
| Mais comum em | Meninas, mulheres e adultos | Crianças pequenas, principalmente meninos | Crianças em idade escolar |
| Risco de passar despercebido | Alto: não incomoda ninguém além da própria pessoa | Baixo: é visível, embora confundido com "falta de limite" | Médio: o comportamento chama atenção; a desatenção vira "preguiça" |
E qual é o tipo mais comum? Depende de quem você olha. Em crianças em idade escolar, a combinada: a ABDA cita cerca de 66% de combinada, 26% de desatenta e 8% de hiperativa-impulsiva. Em meninas e mulheres, a desatenta, segundo o consenso de Young e colegas (2020) e a revisão de Quinn e Madhoo (2014). Em adultos, a hiperatividade visível já diminuiu e a desatenção é o que mais sobra.
TDAH predominantemente desatento: o tipo que ninguém vê
É a apresentação em que a pessoa preenche os critérios de desatenção (seis ou mais sintomas, cinco a partir dos 17 anos), mas não os de hiperatividade-impulsividade. O prejuízo está em sustentar a atenção, organizar, lembrar e terminar. Como não incomoda ninguém, é a que mais demora a ser diagnosticada.
Carla, 34 anos, analista. Entra na reunião disposta a prestar atenção, e presta: olha para quem fala, concorda com a cabeça, anota. Quando sai, não sabe o que ficou decidido. O e-mail do cliente, ela abriu seis vezes hoje e ainda não respondeu. A chave do carro está onde ela "nunca deixaria".
De fora, Carla parece distraída. De dentro, ela se esforça mais que os colegas para entregar o mesmo, e o cansaço disso é invisível. É o padrão que o consenso de Young e colegas descreve nas meninas com TDAH: comportamento socialmente adaptado e esforço extra que mascaram o prejuízo até ele deixar de caber na vida. O artigo sobre TDAH em mulheres aprofunda isso.
Desatento não é sinônimo de leve. É sinônimo de silencioso.
TDAH predominantemente hiperativo-impulsivo: "com o motor ligado"
É a apresentação em que o mínimo é atingido no grupo da hiperatividade-impulsividade, e não no da desatenção. Os sintomas são de movimento e de freio: não parar quieto, falar demais, interromper, responder antes do fim da pergunta, não esperar a vez. É a mais visível e a mais rara das três, sobretudo depois da infância.
Théo, o menino da abertura, é a versão clássica. Mas a expressão do DSM para um dos sintomas, agir "como se estivesse com o motor ligado", vale também para o adulto. Rafael, 29 anos, não corre pela sala. Balança o pé embaixo da mesa a reunião inteira, termina a frase dos outros, manda a mensagem antes de reler, e à noite a cabeça continua em terceira marcha. A ASRS, o questionário de rastreio para adultos, pergunta exatamente isso: se você se sente "ativo demais, como se estivesse com um motor ligado".
O motor ligado
Imagine um carro parado no sinal com o motor acelerado o tempo todo. Não vai a lugar nenhum, mas vibra, faz barulho, e qualquer toque no pedal sai cantando pneu. Na criança, o carro anda mesmo: corre, sobe, derruba. No adulto, o carro aprendeu a ficar parado, mas o motor nunca desligou. Por isso a hiperatividade adulta aparece como inquietação por dentro, fala rápida, impaciência e decisões tomadas antes de pensar.
A impulsividade é a parte mais cara dessa apresentação na vida adulta, porque sai do corpo e vai para as decisões: a demissão pedida na raiva, a compra que não cabia. O consenso internacional de 2021 registra risco 23% maior de acidentes de carro e 40 a 50% maior de lesões acidentais no TDAH.
TDAH combinado: quando os dois grupos aparecem juntos
É a apresentação em que a pessoa atinge o mínimo nos dois grupos de sintomas ao mesmo tempo. É a mais frequente em crianças em idade escolar, a mais estudada e, por somar os dois tipos de prejuízo, costuma ser a mais evidente para a escola e a família.
Lucas tem 14 anos. Na aula, é o Théo que cresceu: conversa, levanta quatro vezes para apontar o lápis, responde sem ser chamado. Mas o boletim conta a história da Lívia: trabalho pela metade, prova com a última página em branco, bilhetes na mochila que nunca chegaram em casa. A escola reclama do comportamento, os pais se preocupam com as notas, e os dois estão vendo o mesmo transtorno por lados diferentes.
Compensar, aqui, é mais difícil: quem é só desatento aprende cedo a usar agenda; quem é combinado tem a agenda e a impulsividade de ignorá-la.
O tipo de TDAH pode mudar com o tempo?
Pode, e com frequência. O DSM-IV chamava as três formas de "subtipos"; o DSM-5 trocou por "apresentações" porque a classificação não é estável: a mesma pessoa pode ser combinada aos 8 anos e desatenta aos 25.
O caminho mais comum é um só: a hiperatividade motora diminui com a idade (a Sociedade Brasileira de Pediatria registra isso em seu documento de 2025) e a desatenção fica. A meta-análise de Faraone, Biederman e Mick (2006) mostrou que, aos 25 anos, só cerca de 15% das crianças ainda preenchem todos os critérios, mas cerca de 65% mantêm sintomas com algum prejuízo. O quadro completo some em muita gente; o que sobra é quase sempre a parte desatenta.
Aos 8 anos
Corre pela sala, fala sem parar, não termina o dever. A escola percebe, os pais são chamados, o diagnóstico vem: apresentação combinada. O que incomoda é o comportamento; a desatenção fica em segundo plano.
Aos 30 anos
Fica quieto na reunião, mas não retém nada. Perde prazos, esquece a conta, começa projetos e abandona. A hiperatividade virou inquietação por dentro. Avaliado hoje pela primeira vez, a apresentação seria desatenta.
O estudo MTA, publicado por Sibley e colegas em 2022, acompanhou 558 crianças por 16 anos. Em 63,8% dos casos o TDAH flutuou: períodos de remissão alternados com volta dos sintomas, conforme a fase da vida. Só 9,1% tiveram remissão sustentada. O tipo que aparece no laudo é uma fotografia dos últimos seis meses, não um destino. E para quem "parou de ter TDAH" na adolescência, muitas vezes o que parou foi a hiperatividade; a desatenção continuou, sem ninguém olhando.
15%
65%
63,8%
9,1%
TDA ou DDA existe? O termo antigo sem hiperatividade
"TDA" (transtorno do déficit de atenção) e "DDA" (distúrbio do déficit de atenção) são nomes antigos para o TDAH sem hiperatividade. Hoje, o nome correto é TDAH com apresentação predominantemente desatenta. É o mesmo transtorno, com os mesmos critérios de duração, início antes dos 12 anos e prejuízo em mais de um contexto.
O nome vem das edições anteriores do manual americano. O DSM-III, de 1980, usava "transtorno do déficit de atenção" com e sem hiperatividade. A sigla pegou no Brasil como "DDA" e nunca saiu de circulação. As edições seguintes unificaram tudo sob "TDAH", e o DSM-IV, de 1994, criou os três subtipos que o DSM-5 transformou em apresentações.
Quem diz "tenho DDA" está descrevendo a apresentação desatenta. O problema é o que a sigla carrega junto: a ideia de que, sem o "H", o quadro é menor.
TDAH leve, moderado ou grave: o que muda?
Além da apresentação, o DSM-5-TR pede que o médico classifique a gravidade atual em leve, moderada ou grave. O critério é duplo: quantos sintomas existem além do mínimo para o diagnóstico e quanto eles atrapalham a vida. A gravidade é independente do tipo e pode mudar entre uma avaliação e outra.
O texto do manual, na tradução reproduzida pela ABENEPI, define assim. Leve: "poucos sintomas, se algum, estão presentes além daqueles necessários para fazer o diagnóstico", com prejuízo pequeno. Moderada: "sintomas ou prejuízo funcional entre 'leve' e 'grave'". Grave: "muitos sintomas além daqueles necessários", ou vários sintomas muito intensos, ou prejuízo acentuado.
A régua é a mesma para as três apresentações. Nove sintomas de desatenção, zero de hiperatividade e um emprego perdido por ano é TDAH desatento grave. Seis sintomas de hiperatividade num menino que vai bem na escola é TDAH hiperativo-impulsivo leve. O tipo diz onde o problema está; o grau diz o tamanho dele. Os dois entram no laudo e orientam o tratamento, que a diretriz britânica NICE recomenda começar por modificações de ambiente antes de considerar medicação.
Como descobrir o meu tipo de TDAH?
Só com avaliação clínica. Nenhum exame ou teste online define a apresentação: o que define é a entrevista com um médico (psiquiatra, neurologista ou neuropediatra), que conta os sintomas de cada grupo presentes há pelo menos seis meses, confirma o início antes dos 12 anos e o prejuízo em mais de um contexto.
- Faça um rastreio honesto. O teste de TDAH usa a ASRS-18, o questionário da OMS para adultos, que separa perguntas de desatenção e de hiperatividade-impulsividade. É ponto de partida, não diagnóstico.
- Reúna a história. Boletins antigos, relatos de pais ou irmãos. A apresentação depende dos últimos seis meses, mas o diagnóstico exige sintomas antes dos 12 anos.
- Leve para a consulta. O médico conta os sintomas de cada grupo, classifica apresentação e gravidade, e descarta o que imita TDAH: ansiedade, depressão, sono ruim, hipotireoidismo.
- Pergunte os dois rótulos. Apresentação e gravidade. Os dois mudam com o tempo, e uma reavaliação daqui a alguns anos pode dar resultado diferente.
E depois do laudo? O tipo orienta onde concentrar a estrutura. Para a desatenta, Barkley recomenda externalizar: tirar da cabeça o que precisa ser lembrado e colocar no ambiente, no lugar e na hora em que será usado. Para a hiperativa-impulsiva, pausas de movimento programadas, como a NICE sugere, e um intervalo forçado entre o impulso e a ação. Para a combinada, as duas coisas. Os artigos sobre função executiva e cegueira temporal explicam por que isso funciona.
O problema que sobra
Tudo o que a seção anterior recomenda tem o mesmo ponto fraco, maior justamente na apresentação desatenta: depende de alguém trazer a informação de volta no momento em que ela importa. Anotar, Carla anota. O que falha é a parte seguinte, em que alguma coisa precisa chamá-la às 15h e insistir quando ela, de novo, esqueceu de olhar.
Foi isso que me fez construir o ASB. A Sofia, a assistente, vive no WhatsApp: você manda um áudio no caminho de casa, ela transforma em tarefa com prazo, e na hora certa ela chama, e insiste, no nível que você escolher, até a coisa estar feita. O tipo muda com o tempo. A necessidade de alguém trazer a informação de volta, não.