A professora chama para a reunião e diz que o seu filho "não para quieto e não termina nada". Você vai para casa e, no caminho, lembra que o boleto do carro venceu ontem. De novo. Com dinheiro na conta.
Na mesma semana, uma amiga de 38 anos conta que foi diagnosticada com TDAH depois de dez anos tratando ansiedade. Três histórias, três idades, e a mesma lista de sintomas aparecendo com roupas completamente diferentes. Este artigo é sobre reconhecer a lista debaixo da roupa.
Quais são os sintomas de TDAH
Os sintomas de TDAH se dividem em dois grupos: desatenção (erros por descuido, não terminar tarefas, perder objetos, esquecer compromissos, distrair-se fácil) e hiperatividade-impulsividade (inquietação, não ficar sentado, falar demais, interromper, não esperar a vez). O DSM-5-TR lista nove sintomas de cada grupo; a CID-11 descreve o mesmo padrão.
A lista oficial vem do DSM-5-TR, o manual da Associação Americana de Psiquiatria. A CID-11, da OMS, usa o código 6A05 e fala em "um padrão persistente de desatenção e/ou hiperatividade-impulsividade com impacto negativo direto no funcionamento". A visão geral (causas, tipos, tratamento) está em o que é TDAH. Aqui o assunto é só o sintoma: o que o manual diz, o que isso significa em linguagem de gente e como se parece numa cena real.
O filtro furado
A atenção funciona como um filtro: o que importa passa, o resto fica retido do lado de fora. No TDAH, o filtro está furado: a conversa da mesa ao lado, a notificação, o pensamento sobre o almoço e a tarefa entram todos juntos, com o mesmo peso. Por isso "presta mais atenção" não resolve: a pessoa não está economizando esforço, está sem filtro. E por isso o nome engana: o problema não é falta de atenção, é falta de controle sobre para onde ela vai.
Os 9 sintomas de desatenção
Os nove sintomas de desatenção do DSM-5-TR são: erros por descuido, dificuldade de manter o foco, parecer não escutar, não terminar tarefas, desorganização, evitar esforço mental prolongado, perder objetos, distrair-se com estímulos externos e esquecer atividades do dia a dia. Todos começam com "frequentemente": o que conta é a repetição, não o episódio isolado.
Cada um com o texto do manual (tradução oficial em português), o significado prático e uma cena:
- Erros por descuido. "Não presta atenção em detalhes ou comete erros por descuido." A pessoa sabe a matéria e erra por pular um sinal. A cena: a planilha enviada com o total errado, revisada três vezes.
- Não mantém a atenção. "Dificuldade de manter o foco durante aulas, conversas ou leituras prolongadas." A cena: ler a mesma página quatro vezes e não lembrar de nada.
- Parece não escutar. "Parece estar com a cabeça longe, mesmo na ausência de qualquer distração óbvia." A cena: a criança olhando para você enquanto você explica e, dois minutos depois perguntando o que era para fazer.
- Não termina o que começa. "Começa as tarefas, mas rapidamente perde o foco e facilmente perde o rumo." A cena: o quarto arrumado pela metade, porque no meio apareceu um livro antigo.
- Desorganização. "Mau gerenciamento do tempo; dificuldade em cumprir prazos; dificuldade em manter materiais e objetos pessoais em ordem." A cena: a mochila que virou buraco negro, o prazo descoberto na véspera.
- Evita esforço mental prolongado. Lição de casa na criança; no adulto, "preparo de relatórios, preenchimento de formulários, revisão de trabalhos longos". A cena: o imposto de renda entregue no último dia, depois de três semanas de "amanhã eu faço".
- Perde coisas. A lista do manual é reconhecível de doer: "lápis, livros, carteiras, chaves, documentos, óculos, celular". A cena: a terceira carteirinha de estudante do ano.
- Distrai-se fácil. Com estímulos externos e, em adolescentes e adultos, "pode incluir pensamentos não relacionados". A cena: a reunião em que uma frase lembrou uma série, que lembrou uma viagem, e você voltou sem saber o que foi decidido.
- Esquece o cotidiano. No adulto, "retornar ligações, pagar contas, manter horários agendados". A cena: o boleto da abertura deste artigo.
Os 9 sintomas de hiperatividade e impulsividade
Os nove sintomas de hiperatividade-impulsividade são: remexer mãos e pés, levantar da cadeira, correr ou subir nas coisas (no adulto, inquietação interna), não brincar ou relaxar em silêncio, agir como se estivesse "com o motor ligado", falar demais, responder antes de a pergunta acabar, não esperar a vez e interromper. Os seis primeiros são hiperatividade; os três últimos, impulsividade.
- Remexe-se. "Remexe ou batuca as mãos ou os pés ou se contorce na cadeira." A cena: a perna balançando embaixo da mesa a prova inteira, sem a pessoa perceber.
- Levanta quando devia ficar sentado. Na sala de aula, no escritório. A cena: a criança que "foi apontar o lápis" seis vezes na mesma aula.
- Corre ou sobe nas coisas. Com a ressalva mais importante do manual para o adulto: "em adolescentes ou adultos, pode se limitar a sensações de inquietude". A cena, aos 7 anos: em cima do sofá. Aos 35: no cinema, contando os minutos para o filme acabar.
- Não consegue brincar ou relaxar em silêncio. A cena: as férias em que descansar virou uma tarefa impossível.
- "Com o motor ligado". "Não consegue ou se sente desconfortável em ficar parado por muito tempo, como em restaurantes, reuniões; outros podem ver o indivíduo como inquieto ou difícil de acompanhar." A cena: o colega que todo mundo descreve como "intenso".
- Fala demais. A cena: a resposta de dois minutos para uma pergunta de sim ou não.
- Responde antes de a pergunta acabar. "Termina frases dos outros, não consegue aguardar a vez de falar." A cena: você já sabe o fim da frase do seu chefe. E diz.
- Não espera a vez. "Aguardar em uma fila." A cena: a criança que fura a fila do escorregador; o adulto que troca de caixa no mercado três vezes.
- Interrompe ou se intromete. "Mete-se nas conversas, jogos ou atividades"; no adulto, "pode intrometer-se em ou assumir o controle sobre o que outros estão fazendo". A cena: o projeto do colega que você "só deu uma ajeitada" sem ninguém pedir.
Como o mesmo sintoma aparece em cada idade
O sintoma é o mesmo; o cenário muda. Na pré-escola domina a agitação motora; no ensino fundamental a desatenção fica visível, porque a escola passa a exigir foco; na adolescência a hiperatividade vira inquietação interna e a desorganização custa mais; no adulto sobram desatenção, impulsividade e esquecimento. A tabela abaixo mostra isso sintoma por sintoma.
Esse resumo vem do próprio DSM-5, citado num relatório das National Academies dos EUA: os sintomas "variam da inquietação motora e do comportamento disruptivo, comuns em pré-escolares, aos sintomas desorganizados, distraídos e desatentos, mais típicos de adolescentes mais velhos e adultos".
| Sintoma | Pré-escolar (3–5) | 6–12 anos | Adolescente | Adulto |
|---|---|---|---|---|
| Erros por descuido | Difícil de separar do normal da idade | Erra a conta que sabia fazer | Perde pontos por detalhe do enunciado | E-mail sem o anexo; célula errada na planilha |
| Não mantém a atenção | Troca de brincadeira mais que os colegas | Não acompanha a explicação até o fim | Lê a mesma página várias vezes | Reunião longa: ouviu tudo, reteve pouco |
| Não termina o que começa | Desenhos e jogos pela metade | Lição começada, não entregue | A parte dele no trabalho em grupo atrasa | Dez projetos abertos, nenhum concluído |
| Desorganização | Ainda não se espera organização | Mochila caótica, agenda em branco | Prazos descobertos na véspera | Contas atrasadas com dinheiro na conta |
| Evita esforço mental | Foge de atividades de mesa | Lição de casa vira briga diária | Trabalho de 30 dias feito na última noite | Formulários e relatórios adiados por semanas |
| Perde coisas | Brinquedos e casacos na escolinha | Lápis, estojo, material | Fone, carteirinha, chave de casa | Chaves, documentos, óculos, celular |
| Esquece o cotidiano | Difícil de avaliar na idade | Esquece o bilhete assinado, a roupa de educação física | Esquece combinados e trabalhos | Esquece de retornar ligações, pagar contas, ir à consulta |
| Hiperatividade | Corre, sobe no sofá, não fica à mesa | Levanta na aula, "foi apontar o lápis" | Balança a perna; inquietação por dentro | Não relaxa nas férias; desconforto em cinema, fila, restaurante |
| Fala demais / interrompe | Atropela os outros na roda | Responde antes de a pergunta acabar | Interrompe os amigos, "sabe o fim da frase" | Termina a frase do chefe; assume o projeto do colega |
| Não espera a vez | Fura a fila do escorregador | Reclama de toda espera | Impaciência no trânsito e nos jogos | Troca de fila três vezes; decisões impulsivas com dinheiro |
Em resumo, por fase:
Na criança
A hiperatividade é o que leva ao consultório, porque incomoda. A Sociedade Brasileira de Pediatria lembra que "a escola também desempenha um papel fundamental no diagnóstico, e não raro os educadores são os primeiros a perceber". A desatenção, mais silenciosa, costuma ser notada só quando as notas caem.
No adolescente
Segundo a SBP, o adolescente com TDAH sente "uma sensação interna de inquietação", é "muito desorganizado, devido à falha da atenção" e "frequentemente perde ou não sabe onde colocou objetos". A impulsividade passa a custar mais: direção imprudente, mais risco com álcool e drogas, "reações explosivas súbitas" que logo passam.
No adulto
Sobram a desatenção, a desorganização e a impulsividade nas decisões, com a hiperatividade reduzida a inquietação interna. Os sintomas de TDAH em adultos têm artigo próprio, porque a lista oficial foi escrita pensando em crianças e o adulto quase nunca se reconhece nela de primeira.
Os sintomas "invisíveis": emoção, hiperfoco e tempo
Três coisas que quem tem TDAH reconhece na hora não estão na lista oficial: a dificuldade de regular emoções, o hiperfoco e a "cegueira temporal". Não entram nos critérios diagnósticos, mas aparecem na literatura como características frequentes do transtorno, e muitas vezes são o que mais atrapalha na vida adulta.
Desregulação emocional. A revisão de Katzman e colegas (2017) afirma que "a desregulação emocional é um atributo distintivo da psicopatologia do TDAH adulto": a irritação que sobe rápido demais, a frustração desproporcional com um contratempo pequeno, a explosão que passa em minutos. O consenso internacional de 2021 registra que o metilfenidato reduz a desregulação emocional em adultos com efeito pequeno a moderado, sinal de que ela faz parte do quadro, não de um problema à parte.
Hiperfoco. Parece contradição: a pessoa que não consegue ler uma página passa seis horas num jogo ou num projeto sem levantar para comer. Um estudo com duas amostras de adultos (251 e 372 participantes) encontrou que quem tem sintomas mais altos de TDAH relata hiperfoco significativamente mais frequente, em estudo, hobbies e telas. Não é falta de atenção. É atenção sem volante. O artigo sobre hiperfoco explica como usá-lo a favor.
Cegueira temporal. Russell Barkley descreve o déficit de função executiva no TDAH como algo que "está para o tempo como a miopia está para a visão espacial": a pessoa enxerga o agora com nitidez e o daqui a duas semanas como um borrão. É por isso que o prazo "distante" vira urgente de um dia para o outro. Mais em cegueira temporal.
Sintomas de TDAH em meninas e mulheres
Nas meninas, o sintoma mais comum é a desatenção, não a hiperatividade. Como a menina desatenta não atrapalha ninguém e muitas vezes compensa com esforço e bom comportamento, ela é menos encaminhada, diagnosticada mais tarde e com frequência recebe antes um diagnóstico de ansiedade ou depressão. A lista de sintomas é a mesma; o que muda é quem percebe.
O consenso de especialistas sobre mulheres com TDAH (Young et al., 2020) relata encaminhamentos clínicos de meninos para meninas que variam "de 3 para 1 a 16 para 1", contra cerca de 3 para 1 em amostras da comunidade, ou seja, uma parte grande das meninas com TDAH "provavelmente permanece sem identificação e sem tratamento". O estereótipo do "menino disruptivo", diz o documento, "provavelmente influencia a probabilidade de encaminhamento"; e "comportamentos compensatórios nas meninas, como comportamento socialmente adaptativo e obediência" mascaram o prejuízo.
A revisão de Hinshaw e colegas descreve meninas que "compensam com esforço intenso e estratégias de enfrentamento, mascarando prejuízos centrais", e nota que a proporção de 2 a 2,5 meninos por menina na infância cai para cerca de 1,5 para 1 ou menos na vida adulta. Quinn e Madhoo (2014) acrescentam que as mulheres "tendem a ser mais velhas que os homens quando diagnosticadas" e que, com menos sintomas contados pelos critérios, têm o mesmo grau de prejuízo. O artigo sobre TDAH em mulheres aprofunda isso, inclusive o papel dos hormônios.
Quantos sintomas são necessários para o diagnóstico
Pelo DSM-5-TR, são necessários seis ou mais sintomas de um mesmo grupo (desatenção ou hiperatividade-impulsividade) até os 16 anos, e cinco ou mais a partir dos 17. Eles precisam persistir por pelo menos seis meses, ter aparecido antes dos 12 anos, ocorrer em dois ou mais ambientes e causar prejuízo claro no funcionamento.
6 sintomas
6 meses
12 anos
2 ambientes
Falta um critério que não cabe num número: o manual exige "evidências claras de que os sintomas interferem no funcionamento social, acadêmico ou profissional ou de que reduzem sua qualidade". É o que separa traço de transtorno. Ter seis sintomas sem prejuízo não é TDAH; ter cinco sintomas que destroem a vida escolar pode ser. Todo mundo tem alguns desses comportamentos às vezes; o consenso internacional de 2021 estima que 5,9% das crianças e adolescentes e 2,5% dos adultos preenchem os critérios completos: muita gente, e bem longe de "todo mundo".
A combinação dos grupos define a apresentação: predominantemente desatenta, predominantemente hiperativa-impulsiva ou combinada, e ela pode mudar ao longo da vida, como a tabela acima deixa claro. O médico ainda classifica a gravidade em leve, moderada ou grave, conforme o número de sintomas além do mínimo e o tamanho do prejuízo. O artigo sobre tipos de TDAH detalha cada apresentação.
Quando procurar ajuda e qual profissional
Procure avaliação quando os sintomas são claramente maiores que os de pessoas da mesma idade, duram meses, aparecem em mais de um ambiente e estão custando algo concreto: notas, emprego, dinheiro, relacionamentos, autoestima. Para crianças, pediatra, neuropediatra ou psiquiatra infantil; para adultos, psiquiatra ou neurologista. Psicólogos fazem a avaliação que apoia o diagnóstico.
A ABDA é direta sobre o método: "o diagnóstico é inteiramente clínico, feito com base nos sintomas", por "psiquiatras, neurologistas e neuropediatras", e "não é necessário exame de ressonância, eletroencefalograma ou qualquer outro". A SBP repete: "não há exame ou teste psicológico que permita fazer o diagnóstico". Na prática: entrevista longa, relato de quem convive (pais, professores, parceiro) e exclusão de outras causas, como ansiedade, depressão e sono ruim.
Para estudantes, a Lei 14.254/2021 garante acompanhamento integral a quem tem TDAH ou dislexia, incluindo "identificação precoce do transtorno, o encaminhamento do educando para diagnóstico" e apoio na rede de ensino; a escola pode e deve ser parceira. Para adultos, o teste de rastreio ASRS é um ponto de partida honesto para levar à consulta, não um veredito.
Uma dica para a consulta: chegue com exemplos. Não "sou desorganizado", mas "em setembro paguei três contas atrasadas e perdi dois prazos no trabalho". O profissional precisa de cenas, e a memória de quem tem TDAH é exatamente o que não entrega cenas sob demanda. Anote por uma ou duas semanas antes.
O problema que sobra
Repare no padrão: quase tudo que este artigo descreve é falha de trazer a coisa certa à mente na hora certa. A conta não foi esquecida por falta de dinheiro; a lição não ficou pela metade por falta de capacidade. E a recomendação de anotar exemplos para a consulta tem o ponto fraco de toda estratégia para TDAH: depende de lembrar de anotar.
Foi isso que me fez construir o ASB. A Sofia, a assistente, vive no WhatsApp: você manda um áudio no caminho de casa ("boleto do carro, dia 10"), ela transforma em tarefa com prazo, e na hora certa ela chama e insiste, no nível que você escolher, até a coisa estar feita. Não é um filtro novo para a atenção; é alguém do lado de fora, trazendo a informação na hora em que ela importa.