ASB

Ferramentas7 min de leitura

Lembrete por horário ou por lugar? Qual você tem mais chance de cumprir?

Lembrete por horário te obriga a ir buscar a intenção; lembrete por pista faz ela vir até você. O que a pesquisa diz sobre os dois e quando cada um ganha.

Pense na atividade humana mais obcecada por horário: a aviação comercial. Horário de partida, janela de pouso, slot no aeroporto, conexão de quarenta minutos. Se existe um lugar onde o relógio manda, é ali.

Agora olhe o que um piloto precisa lembrar de fazer. O grosso dos checklists não está amarrado ao relógio. Não existe "às 14h32, baixar o trem de pouso". Existe "antes da partida", "antes da decolagem", "na aproximação". O gatilho é a fase do voo, não a hora.

É um detalhe curioso: o setor que mais vive de horário organiza a memória por acontecimento. E nós, que não pilotamos nada, escrevemos "comprar pão, 18h" e ficamos surpresos quando às 18h estamos presos no trânsito, longe de qualquer padaria.

A diferença, numa frase

Parece uma diferença de formato, como escolher entre caneta azul e preta. Não é. São dois mecanismos de memória diferentes, e um deles é bem mais caro.

O que cada um é, de verdade

A psicologia chama a habilidade de lembrar de fazer algo no futuro de memória prospectiva, e costuma dividi-la em dois tipos. A classificação ficou popular com o trabalho de Gilles Einstein e Mark McDaniel, a partir de 1990: há tarefas baseadas em tempo (fazer algo às 15h, ou daqui a dez minutos) e tarefas baseadas em evento (fazer algo quando uma pista aparecer).

O primeiro estudo deles já trazia uma surpresa. Testaram adultos jovens e idosos numa tarefa baseada em evento: apertar uma tecla sempre que certa palavra aparecesse. Os idosos iam pior nos testes comuns de memória, de recordar listas, mas não iam pior nessa. A pista do ambiente parecia compensar o que a memória deixava de fazer sozinha.

Cinco anos depois, a mesma equipe pôs os dois tipos lado a lado. Na tarefa por evento, de novo, nenhuma diferença de idade. Na tarefa por tempo, a diferença apareceu. A explicação dos autores é o coração deste texto: a tarefa por tempo depende de recuperação autoiniciada. Ninguém te cutuca. Você precisa, por conta própria, interromper o que está fazendo para olhar o relógio. A pista cutuca; o relógio espera ser consultado.

O experimento do crachá

Laboratório é uma coisa, escritório é outra. Então Abigail Sellen e colegas levaram a pergunta para um centro de pesquisa de verdade. Doze pessoas usaram crachás eletrônicos que registravam onde estavam, e tinham duas missões ao longo dos dias: apertar o botão do crachá num horário combinado, ou apertar ao chegar a um lugar combinado.

A tarefa de lugar foi cumprida em 51,9% das vezes. A de horário, em 33%.

O detalhe mais contraintuitivo vem a seguir: as pessoas pensavam mais na tarefa de horário. Ela ocupava mais a cabeça e rendia menos. Os acertos de lugar, por sua vez, vinham quase na porta: a maioria acontecia nos primeiros segundos depois de entrar no espaço combinado. E os pensamentos espontâneos sobre as tarefas apareciam mais em lugares de passagem, como escadas, do que onde as pessoas se sentavam para trabalhar.

Onde a pista falha

Se a história parasse aqui, a conclusão seria simples: troque todo horário por pista. Mas a pista tem dois defeitos que o horário não tem.

O primeiro é que o evento pode nunca acontecer. "Quando passar pela farmácia" é ótimo se você passa pela farmácia. Se naquela semana você não passa, a intenção morre sem aviso. O relógio, pelo menos, sempre chega.

O segundo é que a pista pode chegar na hora errada. Um estudo de 2006 deu a vinte pessoas, por quatro semanas, um sistema de lembretes por localização no celular. Quando o lembrete chegava no lugar certo, a tarefa era cumprida com mais frequência. Mas o raio fixo em volta do endereço se mostrou tosco: quem estava de carro na via expressa precisava do aviso duas saídas antes; quem estava em casa recebia aviso de lugar próximo sem querer sair; às vezes o aviso chegava depois de a pessoa ter passado do ponto.

Pista boa não é qualquer pista. É a que acontece com certeza e no instante em que dá para agir.

Qual usar quando

As intenções de implementação de Peter Gollwitzer, os planos no formato "quando X acontecer, faço Y", ajudam a entender o critério: o plano funciona porque entrega o controle da ação a uma situação concreta. O ponto, então, é escolher que situação vai segurar a sua intenção, e às vezes a melhor situação disponível é mesmo uma hora.

Lembrete por horárioLembrete por pista
Quem faz o trabalho de lembrarVocê, olhando o relógioO ambiente, junto com você
Falha típicaToca quando você não pode agirO evento não acontece ou chega fora de hora
Melhor paraPrazos fixos e compromissos marcadosAções que dependem de lugar ou situação
EvidênciaPior desempenho nos estudos, sobretudo em idososMelhor desempenho em laboratório e no estudo do crachá

Os limites honestos

Vale dizer o tamanho da evidência. Os estudos de Einstein e McDaniel são de laboratório, com tarefas simples, e a vantagem do evento pesou sobretudo nos mais velhos. O experimento do crachá teve doze pessoas analisadas. O estudo de geolocalização teve vinte, sem grupo de comparação. Não encontrei nenhum ensaio controlado que compare, por semanas, lembretes de horário e de lugar no celular de gente comum.

O que dá para afirmar com segurança é o mecanismo: intenção presa ao relógio depende de você lembrar de olhar; intenção presa a uma pista divide esse trabalho com o mundo. O resto é critério, não lei.

O que eu levei disso

Eu escrevia quase todo lembrete com hora, porque a hora é o campo obrigatório do aplicativo. Hoje eu penso primeiro no momento em que vou poder agir, e só depois no relógio.

É esse o comportamento que eu quis no ASB: um lembrete que chega na conversa que você já abre, pergunta se deu para fazer e, se não deu, volta num momento melhor em vez de sumir.

Conheça o ASB

Um lembrete que não desiste de você

Notificação some. A Sofia insiste: ela chama, espera, chama de novo, no nível de insistência que você escolher, até a tarefa estar feita ou você responder.

  • Três níveis: suave, normal ou insistente.
  • Se não conseguir falar com você, ela pergunta se está tudo bem.
  • Recorrência real: a tarefa volta sozinha no próximo prazo.
Testar os lembretesVocê escolhe o nível por tarefa.

Perguntas frequentes

Quais são os tipos de lembrete?

A pesquisa em memória prospectiva separa dois: os baseados em tempo ("às 18h", "daqui a vinte minutos") e os baseados em evento, em que uma pista do ambiente dispara a lembrança ("quando eu chegar em casa", "quando passar pela farmácia"). Lembretes por lugar, que o celular dispara por geolocalização, são um caso particular do segundo tipo.

Lembrete por lugar funciona melhor que lembrete por horário?

Nos estudos, a intenção presa a um evento ou lugar tende a ser cumprida com mais frequência do que a presa ao relógio, porque a pista faz parte do trabalho de lembrar por você. Mas a pista precisa acontecer de fato, e na hora em que dá para agir. Se o evento é incerto, o horário continua sendo a rede de segurança.

Quando é melhor usar lembrete por horário?

Quando existe um prazo de relógio e nenhum evento confiável antes dele: uma reunião, um pagamento com data, uma ligação que só pode ser feita em horário comercial. Nesses casos o horário é a única pista possível, e vale colocá-lo com folga, antes do limite, e não em cima dele.

Fontes

Sobre o autor

Matheus Valadares

Fundador do ASB

Desenvolvedor e fundador do ASB. Construiu a Sofia depois de perceber que o problema nunca foi falta de aplicativo de tarefas: era ter que lembrar de abrir um.

Continue lendo

Voltar para o blog